O bom da vida é recomeçar

Blog de um pai fora dos padrões
Leonardo de Paula

Cá estava eu, sem a menor motivação e coragem de retomar meu blog sobre a minha vida na paternidade, quando me deparo com o título que eu mesmo escolhi para ele: “O bom da vida é recomeçar”. Não teve como negar esse chamado que eu particularmente considerei um tapa na cara.

A grande verdade é que meu último post no blog teve uma repercussão inesperada que causou uma certa reviravolta na minha vida, um tópico que eu prefiro deixar de fora nesse momento, e eu fiquei pensando e repensando se eu deveria mesmo continuar escrevendo, sendo que não sei como vocês, leitores, desse lado daí recebem o conteúdo. Tudo que escrevo aqui é muito particular e diz respeito a mim, única e exclusivamente. Quando falo das minhas experiências, meu modo de pensar e ver a vida, não tenho como objetivo “passar uma mensagem” ou “dar um toque”, o objetivo desse blog aqui é me ajudar a elaborar melhor as ideias e compreender, pela escrita, o momento que eu vivo.

Enfim, minha filha nasceu! Nasceu em casa, num parto domiciliar, humanizado rodeada de amor e pessoas especiais, exatamente como imaginávamos. Em outra oportunidade eu conto melhor como foi essa experiência do meu ponto de vista: homem, pai de primeira viagem que nunca havia sequer ouvido falar de humanização do parto antes de saber que a Ju estava grávida. Hoje minha filha já está com quase 7 meses de vida (e que vida!) e eu jamais poderia imaginar o que estava porvir. Ouso dizer que o pós-parto é o nosso parir como pais. Ao longo dos nove meses de gestação a mãe vai se preparando para o momento derradeiro, nós também, claro, mas elas são as protagonistas do processo e ninguém mais pode fazer o trabalho por elas. O trabalho de parto é realmente um TRABALHO. Intenso, doloroso, por vezes divertido, descontraído (perceba o trocadalho!), é o tipo de job que não há quem faça por você, a não ser que decida (ou necessite) por uma intervenção médica. Mas o momento posterior ao nascimento é que nos traz a sensação: lascou, agora sou pai mesmo! Com o puerpério vêm as inseguranças, as incertezas, as dúvidas, os momentos de estafa física e mental, as preocupações e nada, absolutamente nada disso tem a ver com o dinheiro, nem com o modelo de pai socialmente construído por décadas e décadas, que o pai é o “provedor da casa” e só. A gente fica bolado no começo pra saber se a grana vai dar, mas no fim das contas a gente se ajeita, porque as crianças quando vêm ao mundo têm inúmeras necessidades a serem supridas, mas nenhuma delas se resolve com dinheiro.

Parir o pai é que é complicado. Porque a gente se sente meio deslocado, por vezes até impotente diante de determinadas situações que por ora só a mãe é capaz de resolver, mas isso não é assimilado facilmente por nós. Eu acho que o mais importante de tudo, e é quando a mágica acontece, é a conexão. A conexão pai-bebê não é algo fácil de ser estabelecido e a gente acha que é e as vezes força situações que pioram o quadro. Aliás fica aqui o aprendizado número um do novo pai: forçar situações nunca resolve problemas. Só agrava ou torna o momento constrangedor e desconfortável. A conexão é algo natural e ela acontece da noite pro dia, como tudo na vida de um bebê. No começo eu achei por diversas vezes que eu estava conectado, por sentir um amor indescritível pela minha filha. Mas não. A conexão com a minha filha veio pela comunicação e não pelo sentimento. Veio pelo relacionamento que eu decidi estabelecer com ela, nossos momentos, nossa rotina, e ela se fez como mágica pelo olhar. A Flor sempre teve um olhar penetrante, mas no dia que a conexão se estabeleceu foi como se, pelo olhar, ela estivesse entendendo tudo que se passa dentro da minha cabeça e eu compreendendo o que se passa com ela. Da noite pro dia eu passei a compreender se ela estava com frio ou com sono, se ela estava curtindo o momento sozinha ou precisando de atenção, se ela estava querendo mamar ou simplesmente incomodada porque fez cocô e eu não tinha percebido ainda a tempo de trocar a fralda.

Aqueles olhinhos apertados pela bochecha que expande um sorriso constante me dizem tudo que eu preciso saber. Espero de verdade que nunca percamos essa conexão, pois não existe coisa mais linda e gratificante na vida de um pai. 


Este ano de 2014 não foi nada do que eu esperava. Mas como dizem sabiamente por aí, Deus não nos dá o que queremos, mas exatamente o que precisamos no momento. Eu recebi as ferramentas de que precisava para vencer, mês a mês, esse ano que não foi nada fácil.

Foi um ano de muitas mudanças, tanto internas quanto externas. Mudei minha forma de ver a vida, mudei minhas prioridades, redefini valores pessoais e mudei de endereço cinco vezes em menos de um ano. No começo eu achei que estava perdido, nada mais fazia sentido, foi preciso muita paciência e sabedoria para esperar. Esperar até que as coisas fizessem sentido. Tudo acontece na vida com um propósito, talvez a gente não consiga entender no momento mas, no fim, com um pouco de reflexão, conseguimos perceber o sincronismo do maestro invisível que rege tudo isso.

Minha terapeuta me disse certa vez que “casa” é arquétipo de “eu interior”. Se não estamos nos sentindo bem dentro da nossa própria casa, isso significa que algo não está bem dentro de nós. Pensando dessa forma, faz todo sentido eu ter realizado cinco mudanças de casa em menos de um ano. CINCO. Se você que está lendo esse texto não me vê há mais de um ano, ou não teve muito contato comigo neste ano de 2014, esteja certo de que não me conhece mais.

Esse ano pude finalmente enfrentar todos os meus medos e preconceitos e buscar uma forma de autoconhecimento, no meu caso, terapia. Percebi que passei 29 anos da minha vida sem saber quem eu era. Durante toda minha vida não agi por vontade própria, mas pela vontade dos outros. Sempre tive muito medo. Medo de não ser aceito, medo do abandono, medo de não agradar, medo de não ser o suficiente. Tive que me recolher, repensar, me reconhecer.

Nessa busca por autoconhecimento, percebi que não possuía valores sólidos, valores que delimitam fronteiras. E como são importantes as fronteiras! São elas que nos protegem. São elas que impõem limites e não permitem que os outros nos invadam, manipulem, guiem e desrespeitem. Não fui, ao longo da vida, uma pessoa muito respeitosa. Você, que me conhece há anos e está lendo isso agora, deve estar pensando: “mas como assim? Você sempre foi tão bonzinho, como assim não era uma pessoa respeitosa?”. Talvez eu tenha sido com você, mas nunca fui comigo mesmo. Nunca respeitei a mim mesmo, minhas vontades, meus limites.

Eu venho de uma criação de família patriarcal. Um sistema hermeticamente fechado, quase uma maçonaria (da qual ainda não descobri o segredo). Um sistema como a UnB, em que é difícil entrar e praticamente impossível sair. Venho de uma família que, impressionantemente, pensa de uma forma muito diferente da minha, possui valores muito diferentes dos meus. Por muitos e muitos anos eu tentei me encaixar nesse esquema, me afastando do que sou de verdade para assumir uma posição que gerasse valor para a família (mas nenhum valor pra mim). 
Quando fui aos poucos descobrindo quem sou, estabelecendo meus valores, erguendo minhas fronteiras e limites, me afastei de todos subitamente. Me afastei da família, dos amigos, dos colegas de trabalho, do próprio trabalho. Aos 29 anos de idade, eu renasci. Consegui por conta própria cortar meu cordão umbilical e dizer adeus a tudo que me afastasse do que realmente sou. Busquei rituais que marcassem a transição do renascimento. Hoje ostento uma barba rala que insisto em cultivar, um bigode que causa desconforto em muita gente e uma tatuagem enorme que simboliza essa transição. Poucas foram as pessoas que realmente compreenderam esse meu renascimento. A maioria (principalmente meus familiares) simplesmente encarou como um desleixo da minha parte, afinal, barba por fazer simboliza um certo descaso com a própria figura e Narciso acha feio o que não é espelho, não é mesmo? A tatuagem, que minha família prefere ignorar pra não entrar em conflito, é uma coruja. Ironicamente corujas simbolizam união familiar e sabedoria. Particularmente, ela tem um significado diferente pra mim. Ela marca o momento em que eu decidi me reencontrar. Daquele dia em diante eu não permitiria mais que as pessoas me invadissem. Até pensei em fazer um Gandalf com os dizeres “You shall not pass!”, mas achei que seria demais. Hahahaha.  

Ao longo desse ano, pude repensar muita coisa. Repensei minhas relações com as pessoas, minha relação com o dinheiro, com a indústria, com o sistema, com tudo. Claro que determinadas coisas estão fora do nosso alcance, sendo assim, só nos resta aceitar, mas das coisas que posso modificar, decidi me empenhar para tornar esse mundo em que vivo um lugar melhor. Toda virada de ano a gente faz uma lista de resoluções para o ano que chega; desta vez eu não tive paciência para esperar, estou colocando em prática de imediato minhas resoluções. A primeira delas é me desapegar de tudo aquilo que não me acrescenta e me desconectar de toda forma de desrespeito. Para isso foi preciso muita coragem, pois é muito fácil se acomodar em determinadas posições, mesmo que elas nos agridam. No ano de 2014 ficarão para trás as amizades que não me acrescentem mais e a companhia daqueles que não me respeitem como sou. Em 2014 ficará todo machismo, preconceito, desrespeito e roupas que não me sirvam mais. Comigo carregarei apenas o que for necessário, dos objetos às companhias. Serei mais leve para que a vida seja leve comigo. Um dos maiores aprendizados desse ano é que é preciso fechar algumas portas para que novos caminhos se abram.

Em 2015 me dedicarei mais a mim mesmo e ao meu núcleo familiar. Serei mais verdadeiro comigo mesmo e em relação ao que eu sinto.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”


2015 será um ano para ficar em alerta. Atento aos detalhes e às reverberações que as mudanças de 2014 provocarão. Venha, 2015, que te receberei com muito amor. 


Faz muito tempo desde que escrevi pela última vez aqui, talvez porque minhas energias estivessem canalizadas para outros feitos, outras obras, e estiveram mesmo. Tem tudo a ver e ao mesmo tempo nada com o período eleitoral que vivemos. As energias de todo o País estavam canalizadas para a política e para a mudança.

Minhas energias estavam muito bem direcionadas para políticas e mudanças, não só as do País, mas as minhas próprias, porque eu acho que é assim que começamos a mudar uma nação, do indivíduo para o macro e não apenas depositando esperanças em um único salvador. Se eu não enfrentar minhas sombras e realizar as mudanças em mim primeiro, que contribuição energética estarei dando para que um país inteiro mude? Como disse Gandhi, “seja a mudança que você quer ver no mundo”.

A chegada da minha filha tem provocado grandes mudanças em mim e na minha vida. Antigamente, quando eu me imaginava me preparando para ser pai, eu tinha uma imagem e uma ideia totalmente diferentes do que sou e do que estou passando hoje. Eu me imaginava uma pessoa já muito mais sábia, com bastante dinheiro no bolso e frases prontas. Hoje eu não sou essa pessoa, nem me imagino sendo. As frases não são, muito menos estarão prontas. A sabedoria vem se modificando e se construindo a cada dia e o dinheiro, bem, o dinheiro é algo que, apesar de eu vir de uma família bem de vida, eu nunca tive nem terei. Pelo menos não da forma como eles têm. São valores que estão sendo reconstruídos e, para que houvesse uma quebra de paradigma, foi preciso repensar políticas e realizar mudanças. Quando falo de políticas não estou me referindo a Dilma ou a Aécio, mas às minhas políticas de vida.

É preciso romper com os padrões, se você quer que a mudança se revele. Infelizmente (ou felizmente) isso não acontece sem deixar alguns mortos e feridos. A grande maioria prega a mudança, mas poucos querem de verdade que ela aconteça, sabe por quê? Porque mudar implica sair do lugar, crescer física, espiritual e moralmente. E, como dizia uma ex-chefe minha, crescer dói. Eu diria mais: dói e incomoda, não só a nós mas a todos a nossa volta. Justamente porque quando você muda a forma de pensar, você está modificando o rumo da sua vida e nem sempre esse rumo é o mesmo daqueles que te acompanhavam até o momento. A quebra de paradigmas causa divergências e é em momentos como esse que modelos se quebram, amizades se desfazem, ídolos se desmitificam.

Há algumas semanas, escutei, em uma palestra, que se estamos insatisfeitos com o rumo das nossas vidas, a culpa não é de ninguém mais além de nós mesmos. Usualmente nos colocamos no lugar de vítimas e iniciamos um ciclo vicioso de degradação pelo pensamento. Procuramos justificativas para nossos erros, em vez de nos assumirmos como os seres humanos passíveis de falha que somos. Temos pena de nós mesmos e erguemos um muro de lamentações. Esse muro impede que a luz chegue até nós, fazendo que nos recolhamos. Nesse caso não há colo nem cafuné que nos reboque da escuridão. A única solução é mudar a forma de pensar, enxergar as coisas por um novo prisma, e o primeiro passo é assumir que não somos perfeitos, nem donos da verdade. Esse primeiro ato de honestidade precisa ser realizado consigo mesmo; para sermos honestos e verdadeiros com os outros, precisamos, acima de tudo, ser honestos conosco. Na palestra, o orador incentivava as pessoas a mudarem “um centímetro por dia” a sua forma de pensar, alegando que, ao final de um ano, todo o nosso destino estaria alterado. Segundo ele, são os pensamentos que guiam nossas ações. As ações que são realizadas de forma repetida se tornam hábitos. Os hábitos que possuímos moldam nosso caráter e o caráter é que direciona o nosso destino. Sendo assim, mudando “um centímetro por dia” a nossa forma de pensar, ao final de um ano todo o nosso destino já estará modificado.

Por esse motivo as mudanças incomodam tanto. Porque algumas pessoas não conseguem conceber o fato de que você não compactua mais com a forma que elas têm de pensar. Mais do que isso, é triste a realidade de que aquela pessoa que te acompanhou por tanto tempo em alguns anos não estará mais ao seu lado, pois o destino os guiará por caminhos diferentes. Às vezes nos pegamos imaginando o porquê de determinadas pessoas terem desaparecido de nossas vidas; a resposta, hoje, pelo menos pra mim, é muito simples: nós pensamos de maneiras diferentes, o que nos leva a encarar a vida de formas distintas e a tomar outros caminhos, que dificilmente voltam a se cruzar.

De toda essa energia despendida nas eleições, a lição que fica é que pouco importa se é o PT ou o PSDB, quem precisa seguir mudando sou eu.


Acabei de descobrir que passei uma vida me sentindo triste e culpado por algo que eu deveria me orgulhar: a desilusão. Acreditem, meus amigos, desiludir-se é algo bom, uma dádiva, uma bênção. Grande parte da minha tristeza, da depressão nos últimos tempos aflorou-se devido a grandes desilusões. A vida não era nada daquilo que eu imaginava, por um grande período eu fui egoísta, boçal e machista. Menti pra mim mesmo por muito tempo, acreditei nas minhas próprias mentiras. Me chafurdei na lama da depressão quando descobri que nada daquilo que eu dizia a mim mesmo era verdade. Talvez a pior desilusão seja quando você cai na real de que você não é nada disso que imagina ou se forçou a imaginar, idealizar. Eu vi amizades caindo por terra, condutas familiares desmascaradas, pessoas que tiveram grande relevância na minha vida perdendo totalmente a sua importância, objetivos de vida desconstruídos. Vi piadas de amigos perdendo a graça, vi conselhos de familiares perderem a força pois não passavam de determinações camufladas, vi minha vida e relações profissionais perderem a relevância que tinham.

E assim comecei a entrar na dança, essa dança da solidão. Me recolhi, a introspecção diária virou afastamento, que por sua vez se transformou em depressão. O que eu não pude entender no momento e acredito que a maioria das pessoas também não entenda, é que a construção da desilusão por parte da nossa sociedade é algo totalmente negativo, quando deveria ser o contrário. Desiludir-se significa não estar mais iludido e portanto entrar em contato com a verdade. Esse contato pode ser muito penoso pra quem vive na fantasia e acaba nela acreditando. Mas a verdade é libertadora, assim como a desilusão.

“Eu não sei bem com certeza, porque foi que um belo dia, quem brincava de princesa, acostumou na fantasia”

Li um texto superinteressante no blog Cientista que Virou Mãe sobre a desilusão e tem uma parte que diz assim:

“... quando dizemos que estamos tristes, magoados e desesperançosos porque nos desiludimos, porque vivemos uma séria desilusão, estamos em um estado de inversão das coisas. Estamos vendo as coisas pelo lado errado. Tendo força e clareza necessárias para colocar a dor de lado, a visão clara do que resta nos aponta não para a tristeza, não para a desesperança, mas para uma coisa muito valiosa: o contentamento. A satisfação. A gratidão. A tranquilidade e paz de espírito que vem de se conhecer a verdade, de não ser mais enganado, de não ser mais vilipendiado ou usado para fins outros que não o bem comum. Estar feliz por ver a realidade tal qual ela é. Ainda que doa, ainda que produza cicatrizes, conhecer e aceitar a realidade, a verdade, são algumas das poucas coisas deste mundo que verdadeiramente nos libertam.”

A desilusão me deu coragem pra me libertar de um futuro que estava sendo construído para mim, mas não por mim. Ela me libertou da obrigação (pela pressão social) de estar presente em eventos que não me interessavam, da companhia de pessoas que não compreenderam minhas escolhas ou simplesmente não vibram mais na mesma sintonia que eu.

Hoje como pai, posso dizer com todas as letras e sem medo de ser feliz que me sinto desiludido quanto à forma que vivi e que me foi apresentada a criação e a educação dos filhos. Se alguém da minha família estiver lendo isso agora, por favor não se ofenda, eu só acredito que o curso da história segue reeditando velhos padrões até que o despertar atinja alguém de forma profunda o suficiente para que se estabeleça a mudança. Nós vivemos em um país que insiste em adotar medidas corretivas ano após ano e nós somos frutos disso. O horário eleitoral está aí para nos provar que a palavra mudança aparece de relance e depois hiberna por mais quatro anos num ciclo que parece interminável. Vivemos em uma sociedade preguiçosa que adora remediar problemas que poderiam ser facilmente extinguidos pela prevenção. Faça um rápido e honesto exame de consciência e me diga o que é mais fácil pra você, mudar o vaso de porcelana de lugar ou proibir que seu filho brinque nas proximidades dele? Por muitos anos eu acreditei na proibição, no grito e na palmada, porque foi assim que cresci, foi assim que aprendi. O que não significa que eu tenha que agir da mesma maneira com os meus filhos daqui pra frente. Eu sei o que isso causou em mim, só eu sei a imagem que minha cabeça formou dos meus pais e como isso refletiu na minha vida pessoal quando cresci. Hoje eu tenho a possibilidade de fazer diferente, se vou conseguir ou não eu não sei, mas tenho informação, boa vontade e desejo de mudança dentro de mim.



Meu Senhor! Como o tempo voa! Essa semana a Ju completa 18 semanas de gestação. Muitas coisas aconteceram nessas últimas semanas e eu não consegui organizar os pensamentos ainda para poder traduzir aqui o turbilhão de sentimentos.

Primeiro preciso contar oficialmente aqui no blog algo que provavelmente todos os que leem aqui já sabem: é uma menina!  No último ultrassom que fizemos o médico disse ter absoluta certeza. Ju e eu ficamos super felizes com a novidade, eu sempre quis ter uma menina e depois fiquei sabendo que esse também sempre foi o desejo dela. Apesar do médico ter afirmado que é mesmo uma menina, a Ju ainda ficou com um pé atrás trabalhando a possibilidade do médico ter falhado em sua missão de identificar o sexo. Eu sinceramente duvido que uma pessoa que seja especializada em ecografia, trabalhe única e exclusivamente com isso todo dia possa ter se enganado em seu diagnóstico.

Uma menina. Nossa filha não tem nome ainda, ou melhor, tem vários. Uma imensidão de possibilidades. Engraçado como esse momento representa uma partícula da vida e reflete toda eternidade. Ao mesmo tempo que não temos nada, temos tudo. As possibilidades estão apenas aguardando um direcionamento nosso. Por quantas vezes já estive nesse mesmo local, que sensação de déjà-vu. Se me permite dizer algo agora, minha filha, você nem nasceu e já tem tantas possibilidades. Esse é o momento que representa a partícula da vida, por diversos momentos na vida você poderá se sentir acuada ou sem saída, mas na verdade, se você olhar com pouco mais de cuidado perceberá que esses momentos são os mais libertadores, pois as possibilidades são infinitas.

Sempre desejei ter uma filha e tenho agradecido muito a Deus por atender meu pedido. Esse lance de ter uma garotinha sob minha responsabilidade agora tem mexido muito comigo, olha que louco, a criaturinha nem saiu da barriga da mãe ainda e eu já me peguei imaginando o dia em que ela fosse sair de casa. Confesso que foi difícil segurar as lágrimas. Hoje mesmo me emocionei vendo um vídeo de uma professora contando como era sua missão enquanto educadora, passei a lembrar de todos os mestres que passaram pela minha vida e como eles mudaram minha vida, tanto pra melhor quanto pra pior em alguns casos. Não tem como não imaginar como será com ela daqui há alguns anos. Eu li certa vez que quando você se torna pai você passa a se preocupar mais com o futuro da nação, política e educação de qualidade. Na época achei balela, mas agora entendo que não, faz total sentido, que lugar é esse que estamos deixando de herança para nossos filhos e netos viverem? Em que condições eles viverão se não fizermos nossa parte pra deixar um ambiente melhor pras futuras gerações?

Por falar em política, sei que isso aqui não é um assunto chave pro blog, nem quero gerar polêmica, mas tem me irritado muito ultimamente ver nas campanhas eleitorais, uns e outros (muitos) usando o termo “em defesa dos valores da família” como plataforma política para se eleger. Todos os que buscarem se informar um pouco mais, saberão o que esse termo mascara: preconceito, desrespeito ao próximo e a mais completa falta de amor. Você luta em defesa dos valores de que família, meu caro?

Já disse aqui algumas vezes que estou em um processo de reformulação de valores e parando para analisar de forma muito dura, preto no branco mesmo, eu cresci em um ambiente completamente machista onde os homens eram o tempo todo estimulados a serem os provedores, insensíveis, comedores e bons de cama. Nunca segui bem essa linha e, acreditem, fui muito (e ainda sou) julgado, criticado e zoado por isso. Quando me refiro ao ambiente, não estou falando exclusivamente de família, mas a cidade que se vive, os amigos, escola, professores, etc. Não posso negar que por um tempo tentei me encaixar nesses padrões, mas não se consegue viver de aparências e chegou o momento em que tive que decidir o preço que queria pagar pelas coisas. O preço que paguei foi me afastar, pois não conseguiria passar uma vida representando um papel que me feria tanto. Se como homem eu sofri o que sofri por conta do machismo, agora com uma menina a caminho, tenho prestado o quíntuplo de atenção para não ter esse tipo de atitude, pois sei que resquícios disso ainda vivem em mim e sei também que comentários totalmente desnecessários provavelmente chegarão até a mim, coisas do tipo “deixou de ser consumidor pra virar fornecedor”, “você vai ter que cria-la numa redoma”, “azul não é coisa de menina”, “imagina sua filha adolescente dançando funk”. Muito provavelmente ela não gostará de funk, pois não crescerá em uma casa/família que tem gosto por esse estilo musical, porém se por um motivo ou outro ela gostar e quiser dançar, quem sou eu pra determinar o que ela deve ou não deve gostar? Esses dias atrás li um texto super interessante no Potencial Gestante sobre um pai pró-feminismo, se o assunto te interessa vale o clique.

Pra finalizar queria compartilhar com vocês a emoção que foi receber uma mensagem da Ju dizendo que a estava sentindo nossa filha se mexer. Não sei explicar, mas essa mensagem encheu meu dia de alegria, como se eu mesmo pudesse ter sentido ela se mexendo. Mal posso esperar pelo momento em que começar a sentir os primeiros chutes, toda vez que passo o óleo na barriga da Ju é inevitável imaginar esse momento. <3



Meu querido bebê,

Durante toda minha vida me peguei imaginando como seria quando eu fosse pai. Apesar de você nem ter nascido ainda, já tenho dentro de mim um amor enorme por você. Eu nunca tinha entendido muito bem como é esse lance de amar uma pessoa, mesmo nunca a tendo visto. Agora eu entendo. Já li em vários lugares que a gente não sabe o que é amor de verdade até ter um filho e hoje consigo compreender essa frase um pouco melhor. Você não tinha nem forma ainda e eu já te amava com toda minha alma. Fico imaginando como será quando olhar nos seus olhinhos pela primeira vez, se apenas ao escrever isso já derramo uma lágrima de felicidade.

Quero que você saiba, meu filho (ou filha), que a sua vinda foi super desejada, eu pedi a Deus com todo meu amor e toda minha fé que ele me confiasse a sua vida. E agora que você está aqui, na barriga da sua mãe, eu agradeço todos os dias pela sua vinda. Acompanho dia a dia o seu crescimento e sua formação. Conheço cada passo da sua evolução, a sua chegada me despertou ainda mais o interesse pela vida: pela sua, pela minha e pela nossa. Minha vida nunca mais será a mesma agora que você está entre nós, e eu dou graças a Deus por isso.

Desde que você chegou eu tenho pensado muito sobre o meu papel na sua vida, como exercer a paternidade, educar sem reprimir, sem agredir, dar o exemplo. Mas há alguns dias eu inverti os papeis e comecei a imaginar qual seria o seu papel na minha vida. Certamente você não veio a passeio e saiba que antes mesmo de nascer já provocou grandes mudanças em mim. Eu não vejo mais a vida com os mesmos olhos. Penso duas vezes antes de falar ou fazer alguma coisa, me preocupo mais com a minha segurança e minha saúde, fiz (e ainda estou fazendo) uma reavaliação de vários conceitos e valores pessoais. Você já me melhorou, meu amor, e muito. Se em tão pouco tempo já fez tudo isso, imagino que seu papel seja mesmo de transformação. Tenho certeza que aprenderei muito com você.

Saiba, meu amor, que te aguardo aqui de braços abertos pra te dar todo carinho e atenção que você precisar. Que o respeito seja o guia do nosso relacionamento e que o amor sele nossa união por quanto tempo Deus nos permitir desfrutar da companhia um do outro.

Com amor,
Seu pai. 


Com o passar dos anos atingimos uma determinada idade e passamos a não nos surpreender mais. É aí que perdemos o brilho e até mesmo o tino filosófico para a vida, como diz Jostein Gaarder, afinal, se não nos admirarmos com as coisas, como podemos desenvolver a curiosidade e consequentemente soluções criativas? Quando foi a última vez que você parou para admirar a beleza de passar por uma experiência pela primeira vez? Eu estou vivendo uma dessas experiências muito intensamente, a paternidade é algo que se renova a cada dia proporcionando muitas primeiras vezes e a beleza está em vive-las conscientemente.  

Esse mês passei pelo meu primeiro dia dos pais do lado de cá, como pai. Preciso confessar que dia dos pais nunca foi uma data muito bacana pra mim, não sei explicar porque, mas especialmente depois que meu pai faleceu. Hoje eu consigo lidar bem com a falta que ele me faz, mas no dia dos pais sempre bate aquela melancolia, a saudade, algumas vezes consigo até sentir o cheiro dele, parece que ele está aqui. Mas esse final de semana do dia 10.8 foi muito especial pra mim. Pela primeira vez eu desencanei do fato de acordar e não ter a quem parabenizar pelo dia. Não fiquei procurando “pais substitutos”, mandando mensagem para tios, amigos e afins que já são pais. Eu simplesmente me presenteei com esse dia. Me libertei da “obrigação” de estar com a família, afinal, minha principal família agora estava lá comigo, num espaço de 50 metros quadrados, nossa família de três. Fui acordado da forma mais especial, com café na cama e beijinhos de bom dia. Pela primeira vez fui eu quem recebi um “feliz dia dos pais”. Pude ainda deitado falar com meu filho, dar bom dia a ele e fazer um carinho na barriga da mamãe que tá cada dia mais linda. Antes mesmo de colocar os pés no chão as lágrimas já escorriam de emoção ao ler um bilhetinho que a Ju escreveu pra mim assinando ao final “Sua Ju e seu bebê”. Eu ando muito emotivo ultimamente, acho que esse lance de alteração hormonal é contagiante, ou seria contagioso? De presente ganhei óculos escuros e muito carinho. Passamos um dia bem agradável em casa só nós três curtindo uma preguiça. A Ju começou a fazer um scrapbook (você encontra mais detalhes aqui no blog dela) para o nosso bebê contando um pouco da nossa história e tá ficando lindo. Enquanto isso eu fiquei organizando meu iTunes e escutando umas músicas. Vimos juntos a Superlua nascer, que eu nem achei assim tão super, mas tudo bem. Ao longo do dia recebi algumas mensagens de amigos e dos meus irmãos me desejando um feliz dia dos pais, o que também foi bem bacana.


A parte mais bacana disso tudo acho que foi realmente ter consciência do momento que eu estou vivendo. Eu vivi essa minha primeira vez em sua plenitude, me surpreendendo, me admirando e me emocionando com cada detalhe, como há muito não fazia. A paternidade tem me chamado cada dia mais a viver conscientemente.

Hoje de manhã fomos ao posto de saúde e conseguimos ouvir os batimentos cardíacos do bebê. É uma emoção inexplicável, a gente sabe que tem um serzinho ali dentro que vive, se mexe, nos ouve, sente nosso toque e tudo mais, mas como a gestação ainda está bem no começo, não conseguimos sentir ainda fisicamente sua presença. Ouvir seus batimentos cardíacos é como nos puxar para a realidade. É uma mistura de “nossa, tá vivo mesmo” com “tsc awwwnnnm <3”.

Depois de amanhã completaremos 15 semanas de gestação. Temos uma ecografia marcada para essa semana e, com sorte, conseguiremos saber o sexo do bebê. A Ju ainda não se decidiu se quer ou não saber. Hoje quer, amanhã não quer e assim vamos caminhando. Eu nunca tive dúvidas quanto a isso, minha curiosidade é maior que a minha paciência. Difícil será não deixar escapar a informação, caso ela não queira saber até o dia do parto. 



Tempo.passa, tempo.ensina,
Tempo.marca, tempo.afina.silêncios.
Se todo silêncio é música em estado de gravidez,
Já.estaciona em mim uma sinfonia,
Na ânsia de parir em sintonia fina.


Não, gente. Esse blog não foi abandonado. Ele apenas deu um espaço para que o cidadão aqui pudesse trabalhar, cumprir seus prazos sem peso na consciência. A última vez que postei aqui a Ju ainda estava com 9 semanas, incrível como o tempo tem voado ultimamente. Quarta-feira agora ela completará 12 semanas. DOZE! Essas últimas semanas foram tenebrosas pra mim e ao mesmo tempo muito, mas muito reconfortantes. Na mesma semana que descobrimos que a Ju estava com uma infecção urinária e que precisaria ficar de repouso em casa, estourou uma bomba no meu trabalho e tive que correr para entregar em 7 dias um projeto que estava encalhado há meses. Eu sou uma pessoa extremamente concentrada e dedicada quando me proponho a fazer algo, mas tenho extrema dificuldade em dividir minha atenção. Terminar de preparar o arroz, a carne e a salada ao mesmo tempo então é algo para ser comemorado com dancinha da vitória em casos como o meu.

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Bom, o lance é que como eu tinha que me dedicar ao projeto, algumas vezes até saindo bem tarde e trabalhando no final de semana, ficava difícil dar a atenção que a Ju precisava e merecia nesse momento. A gente teve alguns desentendimentos sérios e meu nível de estresse estava tão alto que tudo que eu queria era chegar em casa e dormir. Teve um desses dias que eu cheguei, caí na cama e dormi das 19h até o dia seguinte. Fato inédito na minha vida. Mas com o passar dos dias as coisas foram melhorando, ela entendeu essa minha dificuldade e eu consegui ter paz de espírito pra trabalhar na hora que precisava trabalhar e dar atenção a ela no momento em que eu podia dar também.

Não sei se é porque estamos entrando no terceiro mês de gestação, mas as alterações de humor da Ju tem diminuído bastante e isso me deixa mais tranquilo. Ela tem sido muito mais carinhosa, doce e compreensiva comigo. Vocês devem estar pensando aí: “mas que porra é essa? Não é você que deveria ser carinhoso, doce e compreensivo com ela?”. Claro, né. Mas isso aqui é um relato paterno, eu falo das coisas sob o meu ponto de vista, se você quiser saber o dela acesse http://mundomatterno.blogspot.com :)

A gestação é realmente um momento único e que devemos aproveitar ao máximo para rever nossa forma de ver a vida, de lidar com as pessoas, ir a fundo em nossas questões. Eu tenho aproveitado esse momento pra me impor mais, exercer autoridade sobre minha vida, meu território. Parece uma coisa meio animal, né? Mas não, é uma questão de respeito a quem somos. Eu passei muito tempo da minha vida tentando agradar os outros. Me portava de determinadas maneiras para ser bem aceito, seja na família, com os amigos ou mesmo no trabalho. Hoje eu faço o possível para deixar claro quem sou, quais são minhas vontades, meus princípios e o principal: deixar bem claro quais são os meus limites. Tenho aproveitado esse turning point da minha vida, que é a paternidade, pra me fortalecer e uma das primeiras medidas que tomei foi impedir que as pessoas me invadam como elas fizeram a vida toda. Pobre coitado de mim, né? Negativo. As pessoas só fazem com a gente aquilo que permitimos que elas façam. Sempre escutei dizerem isso, mas a distância entre ter conhecimento e saber aplicar é bem importante nesse caso. Tenho escutado muito de amigos e familiares comentários do tipo “você nunca foi assim, por que está agindo dessa maneira agora?”, “você anda muito desleixado com a sua aparência”, “você não conversa mais com a gente”, “tá sumido”. A invasão começa num comentário manipulador travestido de bem-querer, muitas vezes nem percebemos e quando você menos espera está pedindo desculpas ou se justificando por ser quem é de verdade. Não precisamos de justificativa pra ser quem somos. Simplesmente somos e ponto final. Percebi que nesse período da gravidez é quando temos que tomar mais cuidado, pois os invasores colocam as asinhas de fora sem o menor respeito. Qualquer coisa que você faça, qualquer decisão que você tome, que não esteja dentro do considerado normal ou padrão é uma brecha para que a invasão aconteça. Do sexo do bebê ao nome escolhido, do estilo de roupinha que você compra ao plano de parto. A vida vem dando sinais e me preparando para esse momento. Acredito ter perdido algumas conexões e alguns amigos no decorrer desse processo. Mas estou feliz por finalmente ter levantado essa bandeira por mim mesmo.

Como disse anteriormente, essas semanas que se passaram foram bem doloridas, mas muito compensadoras também. Primeiro porque eu retomei a autoconfiança no meu trabalho, coisa que eu havia perdido há um tempo e não tinha percebido ainda. Percebi que, modéstia à parte, eu sou foda mesmo no que faço e isso tem afastado alguns medos que adquiri recentemente, como o medo de ficar desempregado. Eu nunca fiquei sem emprego em toda minha carreira, mas agora que estou vivendo intensamente as dores e as delícias de ser pai, esse medo saiu lá do fundo do meu inconsciente pra me atormentar. Como posso ficar desempregado se a vida de um ser humano depende de mim agora? Me empenhar na reta final de um projeto grande e importante como o que eu estou envolvido está ajudando a acalmar minha ansiedade em relação a isso. Outra coisa que tem me feito muito bem é fotografar a Ju. Semana passada fizemos um ensaio para registrar a 11º semana de gestação e as fotos ficaram lindas. Está sendo uma delícia ver as transformações no corpo dela, como a barriga está crescendo, o rosto se modificando, o cabelo ficando mais brilhoso e a pele mais macia e bonita. Vamos tentar fazer mais um ensaio semana que vem pra registrar o primeiro trimestre.






Esse final de semana ainda tivemos a oportunidade de dar um tapa na autoestima se arrumando um pouquinho mais para ir a um casamento. A Ju se arrumou toda, fez o próprio cabelo, maquiagem, ficou um espetáculo, de longe a mais bonita da festa <3. Já eu, bom, vocês sabem né? Homem põe um terno e pronto.






Fotos: Dupla Exposição Fotografia
http://www.facebook.com/duplaexposicaofoto
Fazemos fotos especiais de momentos especiais. Quer um ensaio fotográfico tão especial quanto esse? Entre em contato: duplaexposicaofotografia@gmail.com

Nove semanas


Parece nome de filme, mas não. Nosso filho já tem nove semanas e meia de vida. É incrível ver como a barriga da Ju já se modificou, ganhou uma pontinha e vai tomando cada dia uma forma mais linda. Meu pai me disse uma vez: “não importa o quão feia uma mulher seja, ela sempre fica mais bonita quando está grávida”. Nunca entendi direito o que ele quis dizer com aquilo, mas hoje isso faz mais sentido. Eu que já achava minha mulher linda de morrer, tenho notado que ela tem ficado cada dia ainda mais bonita. Não sei explicar direito, mas o rosto da Ju já se modificou um pouco, não sei se é a famosa “cara de mãe” que as mulheres ganham, mas ela está diferente. Diferente pra melhor, na minha opinião. Há nove semanas que nosso filho habita aquele ventre, impossível não se modificar, sabendo que seu sangue bombeia dois corações, não é verdade? Talvez por isso eu esteja vendo-a de uma forma diferente. Meu coração, que antes batia só por ela agora bate por dois.

Nós pais não temos a mesma “intimidade” que as mães têm com nossos filhos durante a gestação, afinal, não é dentro de nós que eles estão crescendo, mal podemos senti-los, ainda mais nas semanas iniciais quando eles ainda não se mexem tanto nem têm força o suficiente pra dar uns chutes. Mas eu tenho buscado, aqui à minha maneira, estabelecer uma ligação com meu filhote. Uma das formas bacanas de estabelecer essa ligação é passando óleo na barriga da Ju. Nesse momento eu não estou só ajudando minha mulher a evitar estrias devido à esticada que a pele dá durante a gestação, mas estou em contato com meu filho. Posso nessa hora conversar com ele, fazer um carinho mesmo que indiretamente e dar uns beijos. Outra forma bacana de estar em contato com meu filho é por meio da oração. Por mais que seu corpinho ainda seja do tamanho de uma azeitona, sua alma já está aqui conosco e recebe todas as energias que direcionamos a ela. Sempre que possível faço minha conexão conversando com ele alguns instantes, eu era acostumado a fazer minhas orações a noite, antes de dormir, mas ultimamente tenho gostado mais de fazer pela manhã, depois de um bom banho. Sinto que estou mais leve e a ligação acontece com mais facilidade. Eu tenho meus rituais, quando tenho tempo gosto de acender um incenso ou uma vela, ler o evangelho e só então iniciar meu bate-papo. Mas independente de tudo o importante é abrir o coração pra que a coisa realmente aconteça. Agradeço sempre por tudo, pela oportunidade de estar vivendo esse momento da minha vida e agradeço a Deus e ao meu filho por terem me confiado essa oportunidade de aprendizado e crescimento. Nas minhas conversas com ele sempre digo que farei o melhor para que ele cresça da forma mais saudável e livre possível. Livre pra sentir, pensar e ser o que quiser. Outra coisa importante que sempre falo com ele é que, como disse no post anterior, estamos iniciando aqui um recomeço. Eu acredito em reencarnação, então não sabemos qual é o nosso histórico de vidas passadas, mas independente de qual seja esse histórico eu peço perdão por qualquer desavença e igualmente o perdoo caso seja necessário para que nossa nova jornada construída com bases sólidas no amor e na confiança.

Desde que tive a notícia de que vou ser pai que as sensações flutuam entre o real e o surreal. Mas essa semana tivemos a primeira oportunidade de ver com nossos próprios olhos o pequenino. A Ju não estava se sentindo muito bem e como ainda não temos um médico a quem recorrer nesses casos, fomos ao hospital pra checar se está tudo bem. Do consultório da emergência saímos com a missão de fazer uma ecografia. Não sei se consigo ainda descrever a mágica desse momento. Ver o meu filho pela primeira vez foi uma emoção sem fim. É REAL! Ele ta mesmo ali dentro, entre nós todos os dias. O médico disse que não há nada de errado com a gestação. O sorriso não nos abandonou nem por um minuto durante o exame e foi impossível segurar as lágrimas que escorreram de alegria. Tão pequenino e já dava pra ver a cabeça (enorme!) o tronco, braços e pernas. A parte mais emocionante foi ver e ouvir o coração bater. 173 batimentos por minuto, o pequeno está em ritmo acelerado de crescimento, assim como nosso amor por ele.

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